Você entrou no banho pensando no que ainda faltava fazer, e saiu sem lembrar da água. Foram quatro minutos. Nesse tempo já resolveu por dentro o jantar, uma conversa difícil com o seu filho e um e-mail que ficou pendente.
Depois almoçou em pé, olhando a tela. À noite sentou no sofá com a série passando e a cabeça em outro lugar.
Aí chega o domingo à tarde, sobra uma hora livre, e você não sabe o que fazer com ela. Essa é a hora em que muita mulher percebe alguma coisa e não consegue dar nome.
O prazer virou a última linha da lista
Quando eu pergunto para uma mulher do que ela gosta, a resposta costuma demorar. Vem um "não sei" ou um "faz tanto tempo que eu nem lembro".
Ela sabe de cor como cada pessoa da casa gosta do café. Sabe o horário da fisioterapia da mãe, o tamanho do sapato do filho, a marca do sabão que o marido prefere. Sobre ela mesma, silêncio.
E existe uma regra que quase toda mulher que eu atendo carrega sem nunca ter dito em voz alta: primeiro eu resolvo tudo, depois eu descanso. O problema dessa regra é aritmético. A lista não termina nunca, então a segunda parte da frase nunca chega.
O corpo baixa o volume de tudo
Um corpo que passa anos no modo resolver aprende a sentir menos. E ele não escolhe o que desligar.
Por isso a comida perde o gosto, o abraço fica morno, o cansaço só aparece quando já virou febre. A mulher come sem sentir, transa sem estar ali, passa o dia inteiro com frio e só percebe à noite.
A queda da libido costuma ser o capítulo que mais assusta, e ela quase sempre chega depois de tudo isso. Já escrevi sobre esse assunto em quando o desejo some, e vale ler depois. Aqui eu quero olhar para o que vem antes: a capacidade de sentir qualquer coisa boa.
A permissão que ninguém deu
Olhe agora para as mulheres da sua imagem interna familiar e me diga: você viu alguma delas sentindo prazer sem se justificar?
A sua avó teve alguma tarde que fosse só dela? A sua mãe sentava para comer junto ou comia em pé, depois de servir todo mundo, no que sobrou da panela? Quantas vezes você ouviu, em casa, que mulher que se cuida demais está se achando?
Muitas de nós viemos de linhagens em que o corpo feminino servia para trabalhar, parir e aguentar. Prazer ali era pecado, perigo ou luxo de gente que não tinha o que fazer. Isso não fica no passado. Chega até nós como um jeito de tratar o próprio corpo, e chega sem uma palavra sequer.
O prazer não foi embora. Ele ficou esperando uma permissão que ninguém deu a essa mulher, e que ela também nunca deu a si mesma.
Ele não começa na cama
Quando uma mulher me procura querendo reacender a sexualidade, eu costumo pedir que a gente comece bem antes.
Sentir o gosto do primeiro gole do café. Reparar no sol na pele quando você atravessa a rua. Água quente nas costas por mais um minuto. Música alta no carro sozinha. Cheiro de terra molhada. Dormir num sábado sem despertador.
Isso não é distração enquanto o assunto sério não chega. É o treino do corpo para voltar a receber. Quem tenta acender o desejo com o corpo anestesiado costuma se frustrar e concluir que o problema é ela.
Um convite para esta semana
Escolha uma coisa por dia, e que caiba em cinco minutos.
Pode ser comer sentada, sem tela, ao menos nos primeiros minutos da refeição. Pode ser ficar debaixo do chuveiro com a atenção na água, e nada mais. Pode ser a mão sobre o peito antes de dormir, respirando devagar, sem cobrar nada de você.
Se aparecer culpa, e ela costuma aparecer, não brigue com ela. Só repare que ela chegou e continue mais um minuto. É assim que o corpo vai entendendo que agora existe licença.
E leve esta pergunta para a semana: o que você faria hoje se, por uma hora, ninguém precisasse de você?
Se a resposta não vier, isso já diz muito, e é exatamente o tipo de coisa que merece ser olhada com companhia.
Você tem direito a sentir, e não precisa terminar a lista antes. Vamos juntas?
Quer voltar a sentir?
Me manda uma mensagem. A gente conversa sobre o seu momento e sobre o cuidado que faz sentido para você agora.
Falar com a Lu