Você entra na cozinha e fica parada, sem lembrar o que veio buscar. Dirigiu até o trabalho e não sabe dizer por qual rua passou. À noite, deitada, tenta lembrar de alguma coisa do dia e não vem nada, embora o dia tenha sido cheio do começo ao fim.
Muitas mulheres me contam isso pedindo desculpa antes, como se fosse bobagem. Não é bobagem. O corpo cumpre a agenda enquanto você fica em algum lugar atrás dos próprios olhos, esperando.
O automático foi uma solução
Ele não apareceu do nada. Ele ligou num tempo em que sentir tudo era demais.
Talvez você tenha sido a filha que segurou a casa quando a casa balançou. Talvez tenha virado mãe com o corpo ainda cansado do parto e uma lista que não deixava chorar. Talvez tenha atravessado uma perda em que parar significaria desabar, e ninguém ali podia desabar.
Nessas horas, funcionar sem sentir salva. A mulher aprende a fazer, a resolver, a seguir. E o mecanismo é fiel: continua ligado muito depois de a emergência ter passado.
Como ele aparece hoje
Ele raramente aparece como tristeza, e por isso demora tanto a ser percebido. Ele aparece como uma vida que funciona.
As contas estão pagas, os filhos estão bem, o trabalho anda. E existe um domingo à tarde em que você senta no sofá e sente um cansaço que não é do corpo. Existe a comida que você come em pé, olhando o celular. Existe a semana inteira que passou e virou uma coisa só na memória.
E tem um detalhe que quase todas me contam. Você lembra bem do que os outros precisaram nessa semana: a consulta do filho, o remédio da sua mãe, o prazo que o trabalho pediu. Do que você quis, não ficou registro nenhum.
Quando os dias ficam todos iguais, a memória para de guardar. É por isso que os anos parecem passar cada vez mais rápido.
O corpo continua ali enquanto você não está
Ele registra o que você não olha. Guarda no ombro que endurece, na mandíbula travada logo cedo, no sono que vem e não descansa, na TPM que ficou mais pesada, na respiração curta que você só percebe quando alguém pede para respirar fundo.
Nos atendimentos, muitas vezes a primeira coisa que volta não é uma lembrança. É uma vontade de chorar sem assunto nenhum. O corpo tem um tanto de vida acumulado, esperando alguém em casa.
A herança que vem das mulheres antes de você
Olhe para as mulheres da sua imagem interna familiar. A sua mãe se permitia uma tarde sem fazer nada? A sua avó sentava para tomar o café dela, ou tomava em pé, entre uma tarefa e outra?
Muitas de nós crescemos com a ideia de que mulher parada é mulher em falta. Elas quase não tinham escolha, e o que foi sobrevivência delas chegou até nós como hábito. Por isso desligar o automático dá aquela pontada de estar fazendo algo errado. Essa culpa é antiga, e ela não nasceu com você.
Voltar não se faz de uma vez
Ninguém sai do automático por decisão. Quem tenta assim volta em três dias, e ainda se acha fraca por isso.
O que eu vejo funcionar é bem menor. Um minuto parada antes de sair do carro, as duas mãos no volante, sentindo os pés no chão. Um gole de café tomado sentada, sem tela na frente. Uma pergunta simples no meio da tarde: como eu estou agora?
Essas pausas parecem pouca coisa e fazem um trabalho importante. Elas devolvem o hábito de sentir em doses que o corpo aguenta. A presença volta assim, aos poucos, como quem reacende um cômodo por vez.
E quando a presença volta, a vontade vem junto. Primeiro pequena, a vontade de uma roupa, de uma música, de um caminho diferente para casa. Depois maior. A vontade foi a primeira coisa que o automático desligou, e costuma ser a primeira a dar sinal de vida.
Um convite para esta semana
Escolha um momento que já existe no seu dia, o banho, o café, o trajeto, e faça só ele, sem nada junto. Um por dia, durante uma semana. Depois repare no que apareceu.
E se, ao ler isto, você sentiu que o automático está ligado há muitos anos, esse é um assunto para olhar com companhia. Ninguém precisa acordar sozinha.
Você não precisa mudar de vida para voltar a habitar a sua. Vamos juntas?
Quer voltar a se sentir presente?
Me manda uma mensagem. A gente conversa sobre o seu momento e sobre o caminho que faz sentido para você agora.
Falar com a Lu