Você abriu o arquivo do currículo pela primeira vez em onze anos. A última experiência termina em 2014. Ficou olhando para o espaço entre 2014 e hoje, e fechou o notebook sem mudar nada.
No dia seguinte abriu de novo. Escreveu "dedicação à família" e apagou. Escreveu "período sabático" e achou que soava a mentira. Onze anos não cabem numa linha, e é exatamente uma linha que o formulário pede.
O espaço em branco estava cheio
Quase toda mulher que chega até mim nesse momento conta a mesma história por caminhos diferentes. Uma parou quando o segundo filho nasceu e a creche custava mais que o salário. Outra saiu para cuidar da mãe doente, e a doença durou seis anos. Outra acompanhou a transferência do marido para outra cidade e nunca mais achou vaga na área dela. E tem a que não saiu por escolha nenhuma: foi desligada aos quarenta e sete, numa reestruturação, junto com todo mundo que ganhava mais.
Em todas elas eu escuto a mesma vergonha, e ela é de uma coisa que ninguém chama de trabalho. Nesses anos você administrou orçamento apertado, negociou com escola, com médico e com plano de saúde, resolveu crise às onze da noite, segurou gente em sofrimento. Nada disso teve carteira assinada, e tudo isso te formou.
O preconceito com a idade existe
Uma coisa precisa ficar clara aqui. Existe preconceito com mulher acima dos quarenta e cinco no mercado. Ele aparece na vaga que pede "perfil jovem", na entrevista que pergunta se você já tem netos, no recrutador que te acha experiente demais para um salário que você aceitaria. Eu não vou te dizer que isso é coisa da sua cabeça.
O que eu observo nos atendimentos é outra camada, que vem junto e pesa tanto quanto. A mulher chega à entrevista já pedindo desculpa. Explica o buraco antes que alguém pergunte. Aceita a primeira proposta com um valor que ela mesma acha baixo, porque sente que precisa agradecer por ter sido escolhida. Sobre essa dificuldade de dar preço ao próprio trabalho eu escrevi em medo de cobrar o que vale.
A mulher que volta pedindo licença começa a conversa um degrau abaixo de onde ela realmente está.
Quem teve lugar lá fora
Olhe agora para as mulheres da sua imagem interna familiar e pergunte onde elas trabalharam.
A sua avó teve profissão, ou trabalhou a vida inteira sem nunca ter o nome em papel nenhum? A sua mãe parou quando casou, ou nem começou porque o pai dela não deixou? Quando ela quis fazer um curso, alguém em casa riu? Existiu uma tia que foi trabalhar fora e virou assunto nos almoços, a que tinha largado os filhos?
Essas histórias continuam agindo em você, no quanto você sente que tem direito a um lugar do lado de fora da casa. Muita mulher descobre, aos quarenta e oito, que o que trava a volta é uma regra antiga dizendo que o lugar dela é dentro de casa, e que sair dali custa caro.
Uma frase pequena ajuda, dita por dentro, olhando para a sua mãe: eu vejo o que você não pôde viver, e eu vou fazer isso do meu jeito. Ela honra quem veio antes e, ao mesmo tempo, te dá permissão para ir além.
A culpa de sair de casa de novo
Tem uma parte que costuma aparecer só depois da primeira proposta. A casa se acostumou com você disponível. O filho adolescente reclama que agora ninguém busca, o marido pergunta quem vai chamar o encanador, a mãe liga no meio da tarde e estranha quando você não atende.
E vem a culpa, forte, dizendo que você está deixando todo mundo na mão. Olhe para ela com calma, sem obedecer de primeira. Uma casa que funcionou onze anos com você inteira dentro dela vai estranhar a mudança por um tempo, e depois se reorganiza. O que você fazia sozinha vai precisar virar combinado, e combinado precisa ser dito em voz alta, na mesa, com todo mundo.
Por onde começar
Comece pelo papel, antes do currículo. Escreva tudo o que você fez nesses anos, com verbo e com número: organizei a mudança de uma família de cinco pessoas, acompanhei o tratamento da minha mãe por seis anos, cuidei da obra da casa, coordenei a festa da escola com quarenta voluntárias. A lista costuma sair bem maior do que a mulher esperava.
Depois, antes de mandar currículo para qualquer vaga, converse com cinco pessoas que trabalham na área em que você quer entrar. Conversa de café, sem pedir emprego. Muitas das mulheres que eu vi voltarem não voltaram por anúncio. Voltaram porque alguém lembrou delas quando surgiu uma oportunidade.
E ensaie a frase do intervalo em voz alta, até ela sair sem desculpa: passei esses anos cuidando da minha família, e agora estou pronta para voltar. Só isso, sem explicação a mais.
Se a vontade de voltar a trabalhar vem junto com a vontade de mudar a vida inteira, eu escrevi sobre esse momento em recomeçar depois dos 40. E se o medo estiver maior do que você consegue carregar sozinha, esse é um assunto para olhar com companhia.
Você volta com tudo o que viveu nesses anos, e isso conta. Vamos juntas?
Quer atravessar essa volta com companhia?
Me manda uma mensagem. A gente conversa sobre o seu momento e sobre o cuidado que faz sentido para você agora.
Falar com a Lu