Você tem quarenta e seis anos e passou a acordar às três da manhã. Não é preocupação, não tem pensamento nenhum atrapalhando: é o corpo que acorda, com calor, e depois leva duas horas para dormir de novo.
De dia, uma irritação com coisa pequena. A palavra que some no meio da frase. O corpo mudando de forma mesmo você comendo do mesmo jeito. A menstruação que veio duas vezes num mês e depois sumiu por quarenta dias.
Aí você marca a consulta, faz os exames, e volta com o resultado na mão: está tudo normal. Você senta no carro e chora, porque normal é justamente o que você não está se sentindo.
Essa fase tem nome, e quase ninguém te contou
Chama-se climatério. É o período de transição, que costuma começar lá pelos quarenta e pode durar mais de dez anos, em que os hormônios vão diminuindo aos poucos e sem linha reta.
A menopausa é um dia só, e a gente descobre qual foi olhando para trás: é a última menstruação, confirmada depois de doze meses sem nenhuma outra. Tudo o que vem antes, e boa parte do que vem depois, é climatério.
Saber disso muda alguma coisa. Muita mulher passa anos achando que está adoecendo, ou achando que está ficando louca, porque ninguém deu nome ao que ela está atravessando.
Já escrevi por aqui sobre a menopausa e as emoções. Aqui eu quero olhar para o começo, para os anos em que você ainda menstrua e já não se reconhece.
O que a medicina cuida, e o que eu faço
Preciso ser clara com você antes de seguir.
Sintoma de climatério tem investigação e tem tratamento. Calor, insônia, ressecamento, queda de disposição, alteração de humor, tudo isso se acompanha com uma ginecologista que te escute sem pressa. Se a sua encerra a consulta dizendo que é da idade e que vai passar, procure outra. Você tem esse direito.
Eu não trato hormônio, e nada do que eu escrever aqui ocupa o lugar da medicina. O que eu faço caminha ao lado. Eu escuto a mulher que mora nesse corpo em transformação.
O que mais dói costuma não ser o calor
Quando uma mulher nessa fase senta comigo, o calor e a insônia aparecem nos primeiros minutos. Depois, quando a conversa afunda um pouco, chega o que de fato está incomodando.
Ela conta que perdeu a paciência com coisas que aguentou calada por vinte anos. Que anda chorando em situação boba. Que olhou para o casamento, para o trabalho, para a rotina, e sentiu que aquilo não cabe mais nela.
Isso assusta, e eu vejo essa mulher se cobrando por estar sentindo assim. Só que essa fase tem essa característica: ela derruba as máscaras. O corpo baixa a energia disponível, e o que sobra já não sustenta o que era só aparência.
O que aparece agora não nasceu agora. Estava guardado, esperando você não ter mais energia para fingir que estava tudo bem.
O que a sua mãe te contou sobre isso?
Faça essa pergunta e repare no que vem.
A maioria das mulheres que eu atendo responde a mesma coisa: nada. A mãe atravessou aquilo sem dizer uma palavra, ou tratou como frescura, ou foi ficando difícil de conviver e ninguém explicou o porquê para as filhas.
E a avó, então, nem se fala. Envelhecer ali era deixar de ser mulher e vestir a roupa de vó.
Isso não fica no passado. Chega até nós como um jeito de atravessar essa fase, e chega sem palavra nenhuma. Muita mulher descobre, aos quarenta e cinco, que trata o próprio corpo com a mesma dureza com que trataram o corpo da mãe dela na mesma idade.
Olhe agora para a sua imagem interna familiar e me diga: o que aconteceu com as mulheres de lá quando elas pararam de poder gerar filhos? Elas ganharam lugar, ou perderam?
Um rito de passagem sem festa
A gente comemora a primeira menstruação de uma menina, ainda que sem jeito. Comemora a gravidez e o parto. E quando o ciclo se encerra não existe rito nenhum.
Nos povos que preservaram a sabedoria feminina, a mulher que parava de sangrar passava a guardar dentro de si o que antes ela oferecia todo mês, e virava conselheira. A anciã era quem tinha voz na roda.
Aqui a gente aprendeu o contrário, que essa fase é o começo do fim. Uma mulher que acredita nisso atravessa o climatério tentando disfarçar, e gasta uma energia enorme fingindo que nada está acontecendo com ela.
Eu vejo outra coisa nos meus atendimentos. Muitas mulheres se tornam mais elas mesmas depois dos cinquenta. Falam o que pensam, escolhem melhor com quem gastam a própria tarde, param de pedir licença para existir.
Um convite para esta semana
Comece pelo acompanhamento médico em dia, com alguém que te escute.
Depois, dê nome ao que está acontecendo, em voz alta, para uma amiga da sua idade. Você vai descobrir que ela também acorda de madrugada e também achava que era só com ela. Sobre essas noites eu escrevi este texto aqui.
E leve uma pergunta para a semana: o que essa fase está pedindo que você largue?
Se vier uma resposta, e ela costuma vir, esse é exatamente o tipo de coisa que merece ser olhada com companhia.
Você não está ficando louca, e não precisa atravessar isso sozinha. Vamos juntas?
Quer atravessar isso com companhia?
Me manda uma mensagem. A gente conversa sobre o seu momento e sobre o cuidado que faz sentido para você agora.
Falar com a Lu