Você marca no calendário os dias em que não dá para contar com você. Leva analgésico na bolsa como quem leva a chave de casa. E, quando alguém pergunta se está tudo bem, responde que é só cólica, porque já cansou de explicar.
Muitas mulheres chegam até mim assim, com o corpo doendo há anos e uma pasta de exames debaixo do braço. Quase todas ouviram, em algum momento, que aquilo era normal.
Antes de tudo, o que precisa ser dito
Endometriose é doença, tem diagnóstico e tem tratamento médico. O tecido parecido com o que reveste o útero cresce fora dele, e isso inflama, adere e dói de verdade.
Nada do que eu escrever aqui substitui a sua ginecologista, e eu não trato endometriose. Se você suspeita, procure investigação. Se já tem o diagnóstico, mantenha o acompanhamento.
O que eu ofereço caminha ao lado disso. Eu escuto a mulher que vive dentro desse corpo.
A dor de não ser acreditada
Antes da dor no ventre existe outra, e ela quase nunca entra no prontuário.
É a menina que passa mal no banheiro da escola e ouve que é frescura. É a jovem que falta ao trabalho e sente que precisa provar alguma coisa. É a mulher de quarenta que já escutou que engravidar resolve, como se o corpo dela fosse um problema de logística.
Quando isso se repete por anos, acontece algo delicado por dentro. A mulher aprende a duvidar do próprio sentir. Ela chega ao consultório pedindo desculpa por estar ali, e diminui a dor na hora de descrever.
Quando ninguém acredita na sua dor, você para de acreditar nela também. E aí ela precisa gritar mais alto para ser ouvida.
O que aparece quando a gente senta para olhar
Aqui eu preciso de cuidado, porque circula muita bobagem sobre isso.
Eu não digo que a emoção causou a sua endometriose. Quem afirma isso coloca mais uma culpa nas costas de quem já carrega demais, e eu vejo o estrago que essa frase faz.
O que aparece com frequência é outra coisa, e ela merece atenção. Muitas dessas mulheres têm um histórico longo de dizer sim quando o corpo dizia não. De sustentar o insustentável. De adiar o cuidado com elas próprias até virar urgência.
Isso não explica a doença. Explica por que conviver com ela costuma ser mais pesado do que precisaria ser.
As mulheres que vieram antes de você
Olhe para as mulheres da sua imagem interna familiar, e pergunte o que era ser mulher ali.
Sua avó talvez tenha parido em casa, sem escolha e sem colo. Sua mãe talvez tenha aprendido que menstruação é assunto que não se comenta. Talvez tenha havido perdas de gestação que ninguém nomeou, cirurgias resolvidas às pressas, um casamento em que o corpo dela servia e não sentia.
Essas histórias não ficam no passado. Elas chegam até nós como um jeito de habitar o próprio ventre, e a maioria de nós recebeu isso sem uma palavra sequer.
O ventre pede lugar
Nos meus atendimentos, o trabalho com o útero começa por algo simples e difícil ao mesmo tempo: parar de tratar essa região como inimiga.
Uma mulher que convive com dor há anos vai criando uma relação de guerra com o próprio ventre. Ela o odeia um pouco, o culpa pelos planos cancelados, e evita senti-lo sempre que consegue.
Na Bênção do Útero e nas meditações que eu conduzo, a proposta é outra. Levar atenção para lá com respeito, reconhecer o que aquele lugar já sustentou, e devolver às gerações anteriores o que pertence a elas. Não some a dor física. Muda o modo como você atravessa os dias com ela.
O que ajuda, na prática
Comece pelo tratamento médico em dia, com uma profissional que leve a sua dor a sério. Se a sua não leva, troque. Isso não é exagero.
Depois, pare de minimizar quando alguém perguntar. Dizer "hoje eu estou com dor" em voz alta, sem pedir desculpa, é um exercício maior do que parece.
Combine descanso antes do dia difícil, e não depois do colapso. Peça ajuda com nome e tarefa, porque ninguém adivinha. E, se você perceber que a sua história com o corpo vem de muito longe, procure uma escuta que dê conta disso.
O seu corpo não está errado, e a sua dor merece companhia. Vamos juntas?
Quer conversar sobre o seu momento?
Me manda uma mensagem. A gente vê junto o que faz sentido para você agora, no ritmo que o seu corpo pedir.
Falar com a Lu