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Corpo e sexualidade

Endometriose e as emoções: o que o olhar sistêmico acrescenta

Por Lu Cerqueira · 15 de agosto de 2026 · 4 min de leitura

Você marca no calendário os dias em que não dá para contar com você. Leva analgésico na bolsa como quem leva a chave de casa. E, quando alguém pergunta se está tudo bem, responde que é só cólica, porque já cansou de explicar.

Muitas mulheres chegam até mim assim, com o corpo doendo há anos e uma pasta de exames debaixo do braço. Quase todas ouviram, em algum momento, que aquilo era normal.

Antes de tudo, o que precisa ser dito

Endometriose é doença, tem diagnóstico e tem tratamento médico. O tecido parecido com o que reveste o útero cresce fora dele, e isso inflama, adere e dói de verdade.

Nada do que eu escrever aqui substitui a sua ginecologista, e eu não trato endometriose. Se você suspeita, procure investigação. Se já tem o diagnóstico, mantenha o acompanhamento.

O que eu ofereço caminha ao lado disso. Eu escuto a mulher que vive dentro desse corpo.

A dor de não ser acreditada

Antes da dor no ventre existe outra, e ela quase nunca entra no prontuário.

É a menina que passa mal no banheiro da escola e ouve que é frescura. É a jovem que falta ao trabalho e sente que precisa provar alguma coisa. É a mulher de quarenta que já escutou que engravidar resolve, como se o corpo dela fosse um problema de logística.

Quando isso se repete por anos, acontece algo delicado por dentro. A mulher aprende a duvidar do próprio sentir. Ela chega ao consultório pedindo desculpa por estar ali, e diminui a dor na hora de descrever.

Quando ninguém acredita na sua dor, você para de acreditar nela também. E aí ela precisa gritar mais alto para ser ouvida.

O que aparece quando a gente senta para olhar

Aqui eu preciso de cuidado, porque circula muita bobagem sobre isso.

Eu não digo que a emoção causou a sua endometriose. Quem afirma isso coloca mais uma culpa nas costas de quem já carrega demais, e eu vejo o estrago que essa frase faz.

O que aparece com frequência é outra coisa, e ela merece atenção. Muitas dessas mulheres têm um histórico longo de dizer sim quando o corpo dizia não. De sustentar o insustentável. De adiar o cuidado com elas próprias até virar urgência.

Isso não explica a doença. Explica por que conviver com ela costuma ser mais pesado do que precisaria ser.

As mulheres que vieram antes de você

Olhe para as mulheres da sua imagem interna familiar, e pergunte o que era ser mulher ali.

Sua avó talvez tenha parido em casa, sem escolha e sem colo. Sua mãe talvez tenha aprendido que menstruação é assunto que não se comenta. Talvez tenha havido perdas de gestação que ninguém nomeou, cirurgias resolvidas às pressas, um casamento em que o corpo dela servia e não sentia.

Essas histórias não ficam no passado. Elas chegam até nós como um jeito de habitar o próprio ventre, e a maioria de nós recebeu isso sem uma palavra sequer.

O ventre pede lugar

Nos meus atendimentos, o trabalho com o útero começa por algo simples e difícil ao mesmo tempo: parar de tratar essa região como inimiga.

Uma mulher que convive com dor há anos vai criando uma relação de guerra com o próprio ventre. Ela o odeia um pouco, o culpa pelos planos cancelados, e evita senti-lo sempre que consegue.

Na Bênção do Útero e nas meditações que eu conduzo, a proposta é outra. Levar atenção para lá com respeito, reconhecer o que aquele lugar já sustentou, e devolver às gerações anteriores o que pertence a elas. Não some a dor física. Muda o modo como você atravessa os dias com ela.

O que ajuda, na prática

Comece pelo tratamento médico em dia, com uma profissional que leve a sua dor a sério. Se a sua não leva, troque. Isso não é exagero.

Depois, pare de minimizar quando alguém perguntar. Dizer "hoje eu estou com dor" em voz alta, sem pedir desculpa, é um exercício maior do que parece.

Combine descanso antes do dia difícil, e não depois do colapso. Peça ajuda com nome e tarefa, porque ninguém adivinha. E, se você perceber que a sua história com o corpo vem de muito longe, procure uma escuta que dê conta disso.

O seu corpo não está errado, e a sua dor merece companhia. Vamos juntas?

Quer conversar sobre o seu momento?

Me manda uma mensagem. A gente vê junto o que faz sentido para você agora, no ritmo que o seu corpo pedir.

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