Tem a ausência que se vê, do pai que foi embora e não voltou. E tem a que ninguém enxerga, do pai que dormia em casa todas as noites, sentava à mesa e não estava ali. As duas deixam marca, e a segunda costuma ser mais difícil de nomear, porque no papel ele estava presente.
Quando uma mulher me conta a história dela, eu escuto sempre por dois lados: o que a mãe transmitiu e o que o pai transmitiu. E o pai, na nossa cultura, é o que mais fica de fora da conversa.
O que o pai representa
Da mãe vem o acolhimento, a base, o pertencimento. Do pai vem o impulso para o mundo, o senso do próprio valor diante dos outros, a autorização para ocupar espaço e para receber.
Quando essa transmissão falha, aparecem padrões que se repetem em muitas mulheres. A sensação de nunca ser escolhida. A dificuldade de se colocar no trabalho e de pedir o que merece. Uma relação difícil com dinheiro, que também é território simbólico do pai. E uma vida amorosa em que ela se apaixona por homens indisponíveis, distantes ou que dão pouco, o que soa terrivelmente familiar.
A gente não escolhe quem lembra a nossa dor. A gente reconhece, e confunde reconhecimento com amor.
Duas armadilhas comuns
A primeira é a idealização. A mulher defende o pai ausente, minimiza, diz que ele fez o que pôde e que não guarda mágoa. Só que a mágoa aparece no corpo, no tom de voz e nas escolhas. Não dá para curar o que a gente se recusa a ver.
A segunda é a condenação. Ela o transforma em vilão absoluto e o expulsa da própria história. O problema é que metade dela veio dele. Quando ela recusa o pai por inteiro, recusa junto uma parte de si, e essa parte costuma ficar travada exatamente na força e na direção que ela mais precisa.
O movimento que cura
Não é perdoar por decreto, e não é fingir que não doeu. É conseguir olhar para ele como um homem, com a história dele, e dizer por dentro algo simples: você é meu pai, eu sou sua filha, eu tomo de você a vida que você me deu, e o resto eu deixo com você.
Tomar a vida e devolver o peso. Isso é diferente de aceitar o que ele fez. É parar de carregar o que era dele, para poder viver o que é seu.
Não precisa haver reencontro
Muita mulher me pergunta se precisa procurá-lo. Não precisa. Esse trabalho é interno, com a imagem que você carrega dele, e acontece mesmo quando ele já morreu, ou quando o encontro seria doloroso ou impossível.
E vale uma última coisa, para as que cresceram sem pai nenhum. Ele existiu. Você é feita dele também. Dar a ele um lugar na sua história, mesmo sem conhecer o rosto, costuma soltar alguma coisa que estava presa há muito tempo.
Você veio de dois. Tomar essa força inteira é o que te devolve o seu lugar. Vamos juntas?
Quer olhar essa história com apoio?
Me manda uma mensagem. A gente conversa com cuidado sobre a sua história e sobre o que dá para reconciliar.
Falar com a Lu