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Corpo e sexualidade

Miomas: o que o corpo guarda, no olhar sistêmico

Por Lu Cerqueira · 18 de agosto de 2026 · 4 min de leitura

Era um exame de rotina. Você foi de manhã, sem pensar muito, já planejando o resto do dia. A médica olha a tela, demora um segundo a mais do que o normal, e diz que apareceram uns nódulos no útero.

Na volta para casa você está calma por fora e ligada por dentro. E a pergunta que não sai da cabeça quase nunca é sobre o tamanho do mioma. É outra: como é que isso cresceu aí dentro sem eu perceber?

Começando pelo que precisa ser dito

Mioma é um tumor benigno de músculo uterino, é comum, tem investigação e tem tratamento. Muitas mulheres convivem com miomas a vida inteira sem sintoma nenhum. Outras sangram muito, sentem pressão no baixo ventre, cansam de anemia.

Quem cuida disso é a sua ginecologista, e eu não trato mioma. Se apareceu no exame, acompanhe. Se sangra demais, investigue. Nada do que eu escrever aqui ocupa o lugar da medicina.

O que eu faço caminha ao lado. Eu escuto a mulher que mora nesse corpo.

A palavra que mais aparece nos atendimentos

Quando uma mulher chega com esse diagnóstico e a gente senta para conversar, uma palavra volta com frequência: aguentar.

Aguentou o casamento que já tinha acabado por dentro. Aguentou o trabalho por causa do plano de saúde. Aguentou a mãe adoecendo sem dividir com ninguém. Aguentou calada uma conversa que precisava ter acontecido há anos.

Isso não explica o mioma, e eu preciso ser honesta com você aqui. Circula muita coisa por aí dizendo que emoção mal resolvida vira nódulo, e essa frase coloca mais uma culpa nas costas de quem já está assustada. Eu vejo o estrago que ela faz.

O que eu observo é diferente e merece atenção. Mulheres que carregam demais costumam demorar mais para procurar ajuda, minimizar o que sentem e adiar o próprio cuidado até virar urgência. Isso não causa a doença. Isso muda o jeito de atravessá-la.

O corpo não fala em português. Ele fala em sintoma, e espera que alguém se sente para escutar.

O ventre é lugar de gestar muita coisa

A gente aprendeu a olhar para o útero como o lugar de gerar filho, e ele é bem mais que isso.

É de onde nasce o que a gente cria. O projeto guardado na gaveta, a mudança adiada, o livro que nunca começou, a vontade de recomeçar em outro lugar. Quantas vezes eu ouvi de uma mulher que ela tem uma vida inteira parada ali dentro esperando permissão.

E quantas de nós fomos educadas para não ocupar espaço. Para não pedir demais, não querer demais, não brilhar demais. Uma mulher que passa quarenta anos se encolhendo aprende a guardar tudo em silêncio, inclusive o que gostaria de parir.

Olhar para isso não faz o nódulo sumir. Faz você voltar a habitar uma região do corpo que talvez esteja abandonada há muito tempo.

As mulheres que vieram antes de você

Agora olhe para as mulheres da sua imagem interna familiar, e pergunte o que aconteceu com o corpo delas.

A sua avó pariu quantas vezes, e teve escolha em alguma delas? A sua mãe falava do ciclo dela, ou aquilo era assunto que se resolvia no banheiro, sozinha? Houve perda de gestação que ninguém nomeou? Houve cirurgia decidida às pressas, sem ninguém explicar nada a ela?

Essas histórias não ficam para trás. Elas chegam até nós como um jeito de habitar o próprio ventre, e quase sempre chegam sem uma palavra sequer. Muita mulher descobre, já adulta, que trata o próprio útero com a mesma dureza com que trataram o da mãe dela.

Quando a conversa vira retirar o útero

Esse momento merece cuidado, porque ele mexe com muito mais do que o corpo.

Existem situações em que a cirurgia é o caminho, e ela salva a qualidade de vida de muitas mulheres. O que eu peço é que você não atravesse essa decisão no automático, e que não faça isso sozinha.

Nos meus atendimentos, o que costuma aparecer antes e depois de uma histerectomia é luto. Luto por uma possibilidade que se encerra, mesmo em quem já não queria ter filhos. Luto por um pedaço da identidade. E quase ninguém dá licença a essa mulher para chorar, porque todo mundo em volta diz que agora vai melhorar.

Se for o seu caso, dê nome ao que você está sentindo. Despedida também é um rito, e ela pede espaço.

O que ajuda, na prática

Comece pelo acompanhamento médico em dia, com uma profissional que explique as opções e escute as suas dúvidas sem pressa. Se a sua não escuta, troque.

Depois, leve atenção para essa região do corpo em vez de tratá-la como problema. Mão sobre o baixo ventre, respiração lenta, sem cobrar nada de você. Parece pouco e não é. Muita mulher chora na primeira vez que faz isso.

E olhe para o que anda parado esperando permissão. Um desejo, uma conversa adiada, um limite que precisa ser dito em voz alta. Colocar uma dessas coisas em movimento nesta semana já muda o clima aqui dentro.

Se você perceber que a sua história com o corpo vem de longe, das mulheres que vieram antes, esse é um assunto para olhar com companhia.

Você não precisa aguentar mais essa sozinha. Vamos juntas?

Quer olhar isso com companhia?

Me manda uma mensagem. A gente conversa sobre o seu momento e sobre o cuidado que faz sentido para você agora.

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